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em minha casa os espelhos gostam de mim. ao longo dos anos habituaram-se à minha imagem e, como uma esposa que me acompanhasse dia a dia, não notam as marcas que o tempo vai deixando no meu rosto. quando me barbeio ou espreito se me despontam cabelos nas orelhas ou de dentro do nariz, olho por momentos o espelho nos olhos. ele retribui-me o olhar. com um olhar amigo, quase carinhoso. e mostra-me o que sou. há mais de meio século, há muito mais, que me mostra: sempre o mesmo. atravesso o hall. outro espelho sorri-me subtilmente e, com amizade, mostra-me a imagem de sempre. com uma ligeira diferença: agora uso óculos. um par de óculos que levei, à vontade, uns dez minutos a escolher. mas valeu a pena: acentuam ainda um pouco mais o meu ar sobriamente distinto. por força de circunstâncias várias encontro-me a viver há já dois meses numa casa que não é a minha. claro que nada aqui foi escolhido por mim: de todas estas coisas poucas eu teria escolhido. nem os espelhos, simples ou emoldurados. todos eles são frios, distantes e olham-me, sobranceiramente, pendurados mais alto que os de minha casa. forço-me a olhá-los de frente, nos olhos. com dureza retribuem o olhar. no vidrado desse olhar eu vejo alguém que não conheço: um rosto de atónitos olhos papudos e riscado por duras rugas e, cavalgado por ridículo par de óculos, um enorme nariz raiado de vermelho. não, não é verdadeira esta imagem que vejo quando olho mais acima neste espelho: não são meus estes cabelos ralos no alto da cabeça. não é este o meu corpo. mais mentiras não. vou para casa. tenho lá os meus amigos. em minha casa os espelhos gostam de mim. ao longo dos anos habituaram-se à minha imagem e, como uma esposa que me acompanhasse dia após dia, não notam as marcas que o tempo vai deixando no meu corpo. . .
7 comentários:
E como uma esposa, estão lá com os mesmos "olhos"... cheiinhos de saudades à tua espera...
e quando é que vais pra eu ir lá bater à porta?...:-))))
Gostei deste filosofar sobre a nossa incapacidade de nos reconhecermos nos olhos dos outros e apenas vermos de nós o que queremos ver...
Como dizia um amiga, é inevitável envelhecer, mas não o é sermos velhos!
Abraços
Muito bom, Augusto... muito bom! Também me sinto assim com os meus espelhos. :)
Senhor:
o que se passa, talvez, é que os espelhos também envelhecem.
Os seus gostam de si porque, Senhor, talvez também não lhes aponte os pequenos fungos, as pequenas rugas que o tempo sulcou.
Não lhes aponta o dedo como se tivessem culpa do Tempo.
A alma dos espelhos está-lhes mais nas traseiras do que na face brilhante que reflete. Como nós.
E, além disso, Senhor, os seus espelhos vêem mais de si do que pensa: eles olham-no sempre, o Senhor só tem a capacidade de o ver quando o olha nos olhos.
Os seus conhecem-no mesmo quando está distraído, anda pela casa.
São juízes pachorrentos que de tanto verem nada julgam.
Se tiver tempo, talvez lhe fale dos meus, mais severos. Tanta pancada até chegar a uma passageira carícia...
Faço vénia inglesa ao seu texto.
E a si, obviamente.
O seu texto é brilhante...e nada mais posso acrescentar, meu caro.
Um solidário abraço.
gostei muito desse jogo de palavras e de espelhos que, num caso, se limitam a reflectir o desconforto de alguém que habita, sem se harmonizar com ele, um determinado espaço.por isso eles o encaram como de um inimigo se tratasse.
só espero que nenhum dos outros, esses que te amam e há tanto tempo serenamente co-habitam contigo, não tenha exacerbados sentimentos de posse em relação a ti; porque se assim for, que terrível vingança estará a congeminar, para quando regressares a casa?
marradinhas amistosas da bicharada do "pequeno jardim".
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