sábado, 19 de junho de 2010

ATÉ SEMPRE
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......... ............A . CIDADE
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....Era uma vez .um .homem que .vivia.
fora dos muros da cidade. Se cometera algum .crime, se pagava culpas de ante-
passados, ou se apenas se retirara. por .
indiferença. ou vergonha - não se sabe. Talvez um pouco de tudo isto, tão certo é
que do belo e do feio, da verdade e da mentira, do que se confessa e do que se esconde, fazemos todos .nós .a. nossa. casual .existência. Vivia .o homem fora
dos muros da cidade, e dessa segregação deliberada ou imposta acabou por fazer
um pequeno título de glória. Mas não .
podia. evitar (isso não podia) que nos
olhos lhe pairasse a névoa melancólica
que envolve todo o ser desterrado.
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....Algumas vezes tentou entrar na cidade. Fê-lo não por um irreprimível desejo, nem mesmo por cansaço. da .situação, mas por mero instinto de mudança ou desconforto inconsciente. Escolheu sempre as portas erradas, se portas havia. E se lhe aconteceu julgar .que .entrara .na cidade, talvez sim, .mas .era .como .se .a. par .da. cidade. real houvesse .imagens .dela,. inconsistentes .como. a .sombra que nos
olhos se tornava mais e mais densa. E quando essas imagens se desvaneciam, como o nevoeiro que das águas se desprende ao toque .luminoso .do .sol, era .o. deserto que .o. rodeava, e ao longe brancos e altos, com árvores plantadas .nas .torres .e. jardins .suspensos .nas. varandas, os muros da cidade brilhavam outra vez inacessíveis.
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....Da cidade vinham rumores de festa. Assim lho dizia, mais do que os sentidos, a imaginação. Rumores de vida seriam, .pelo menos. .Não essa morte solitária que é a contemplação obstinada da. própria. sombra.. Não o desespero surdo da palavra definitiva que se escapa no momento em que seria, melhor que uma palavra, uma chave. E então. o .homem .rodeava .as. longas .
muralhas, tacteando, à procura da porta que obscuramente lhe estaria prometida.
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....Porque o homem acreditava na predestinação. Estar fora da cidade (se .disso. tinha .real consciência) era para. ele .uma .situação acidental e provisória. Um dia, no dia exacto, nem antes nem depois,. entraria. na .cidade. .Melhor .dizendo: entraria em qualquer parte, que a isto se resumia o seu esperar.. Que .a .névoa. da .melancolia se tornasse noite,. seria um .mal .necessário,. mas também provisório, .porque .o. dia predestinado traria uma explicação. .Ou nem isso, sequer. .Um fim, um simples fim. Uma abdicação já serviria.
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....O. homem .não .sabia .que as cidades que se rodeiam .de. muros .(ainda que brancos e com árvores). não se tomam sem luta. .Não sabia o homem que antes da batalha pela conquista da cidade. outro .combate. teria de lutar consigo próprio. Ninguém sabe nada de si antes da acção em .que. tiver. de .empenhar-se. todo.. .Não conhecemos a força do mar enquanto ele não se move. Não conhecemos o amor antes do amor.
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....Veio a batalha. Como nos poemas de Homero, os deuses entraram nela. Combateram a favor e contra, .algumas vezes .uns .contra os outros. O homem que lutava para viver dentro das muralhas da cidade mesmo assim cruzou espada e palavras com os deuses que estavam do seu lado. Feriu e foi ferido. .E a luta durou longos .e .longos dias, semanas, meses, sem tréguas nem repouso, ora junto às muralhas, ora tão longe delas que nem a cidade se via, .nem se sabia bem .. que prémio estaria no fim do combate. .Foi outra forma .de desespero.
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....Até que um dia o terreno de luta ficou livre e desimpedido, como um estuário .
onde. as águas descansam. Sangrando, o homem e o deus que lhe ficara olharam de frente as portas, abertas de par em par. Havia um grande silêncio na cidade. Ainda amedrontado, .o homem avançou... A seu lado, o deus. Entraram - e foi só depois que entraram que a cidade se tornou habitada.
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....Era uma vez um homem que vivia fora dos muros .da. cidade. ..E .a. cidade .era. ele .
próprio. Josephville, se lhe quisermos dar um nome.
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José Saramago
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